quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

delusional

Amargamente, Dúnia repetia
- Um dia após o outro,
é mais uma guerra vencida.
Dúnia fazia tortas e gostava
do menino Rimbaud,
ele havia lhe ensinado
que pular 
do parapeito da janela
não era boa ideia.

Nem sempre as coisas se resolviam.
Às vezes, Dúnia voltava para casa e
não fazia suas tortas,
não lia a poesia de Rimbaud,
não ia para o parapeito se sentar.

Ia apenas, dormente
transformar-se de novo
naquela menina inocente
que já se foi.


domingo, 24 de fevereiro de 2013


Foi assim que tu pensaste que eu viveria,
vestindo o outono e mesmo assim perambulando nas
ruas inflamadas pela beleza efêmera das pétalas de rosa.
Tocando na vitrola aquela música que tu odiavas e eu dançava
porque nada me faria mais feliz do que estar ali.
O passado não mais me enfraquecia, mesmo assim eu
empurrava-o para longe das laterais das minhas lembranças.

Escreveste trezentos e sessenta e seis poemas em um ano
cada um deles simbolizando uma parte do meu corpo
e eu acendi todas as vezes uma vela
para te esquentar nas noites frias.

Nenhum mapa nunca correspondeu
ao caminho certo pelo qual
eu percorria.

sábado, 23 de fevereiro de 2013


Com que frequência as noites distanciam-se mais e mais dos dias?

São vinte e sete luas que dormem no meu peito.
Nenhuma delas é tão pesada quanto a tua respiração.

oito e mais uma metade

quero escutar novamente
teu sotaque
em forma de verso
rangindo pelos quatro cantos,
acalmando outros corpos
como tu acalmaste o meu.
não quero ficar andando
pela casa deste jeito incomum
escorrendo meus desejos pelos olhos
e deixando cair no chão
só mais uma lástima
sem satisfação.

ainda procuro-te nos mesmos lugares
que não mudam nunca, continuam com
os mesmos cheiros que abafam o olfato
e com as mesmas mulheres rumo ao desabafo
de uma cama sem dono.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013


Poesia, um corpo machucado.

Mesmo nos dias ensolarados, Poesia sentia-se doente
por estar viva.
Amava todos os corpos, menos o seu.
Era uma mulher brava e sentia tão fortemente
cada sentimento ínfimo que nada escapava
dos seus sofrimentos.
Não era isso que queria para a sua vida –
não era a melancolia caçada,
nem as tormentas de noites passadas
ou o amor sem piedade.

Poesia carregava em seu colo o que ninguém esperava – a história de todos os amantes esquecidos nos becos da boêmia. 

chegando à oitava ilha,
desmereço minha viagem.
reduzo a velocidade do navio
que venceu batalhas através de espinhos
e guerreiros já mortos.
tem sido uma longa viagem,
navegando à deriva,
procurando a famosa Esperança
em alguma ilha virgem.
eu e meu navio
não podemos ficar ancorados -
ansiamos por novos destinos
rangindo em algum canto do mundo.
alguma dia, meu navio irá se decompor
e com ele, apodrecerá também os amores vividos
no convés envelhecido
pelo doce mar.


em um hospital lisboeta
eu estava internada há tempos
lia tantas vezes o mesmo parágrafo
transformando o que eu sinto
em metáforas
meses em ausência
verões em casais
e apenas nós, somente nós.
no hospital, ninguém me conhecia
eu era apenas um fantasma percorrendo os corredores
de pés descalços, de mente lânguida
procurando em outros quartos
a cama certa
para morrer em paz.
nenhuma doença caçava a minha anatomia,
apenas aquela
que matava-me após cada refeição
e, após algumas horas,
eu perdia um pedaço de mim
para a garganta inflamada.